Amor Ausências Ardências



  Na pressa que me traz de volta pra tua mão, me atento ao chão pra não fragilizar. Eu não acredito mais que o destino te arraste até aqui, na minha cara e um pé dos meus passos, nem acredito na força do destino, nem acredito mais em você. O mundo deu uma volta imensa em nós dois, lá daquele tempo até aqui, e as vezes volto sozinha pro teu colo, numa loucura inunda que me derruba, como um vento forte com teu perfume, ou um fumo, um filme e um disco.

  Ontem à noite sonhei com você, bonito e tão impressionista uma obra de arte, olhando pra mim esnobe e carinhoso, sorrindo comigo e rindo como se soubesse de tudo, uma história sem fim... Não lembro a última vez que sonhei, nem lembrava da última vez que tinha te visto, foi como se estivesse mesmo ali, no mesmo fundo de tela, com o mesmo amor que eu sentia.

  Te engoli hoje apulso. Acordei num tempo chuvoso e o meu corpo um clima ameno, úmido, reagindo aos meus pensamentos, quase como se você estivesse me beijando agora. Uma saudade tão grande do teu corpo e tua atitude, e da minha boca toda vermelha dos teus impulsos. Uma falta tão grande do espaço curto do quarto, do calor que fazia, da janela lá de cima que a gente fumava e ria.

  Quando me lembro, não forço nenhuma parada, teu amor nem era fundo, era leve e quente, mais perto da carne que do coração. Que moía minhas agonias, numa resolução simplista, casual... Eu ia e voltava, tu ia e voltava, num ritmo sem pressa e sem coragem de cobrar na volta.

  Nossa distância não é bruta, e as lembranças não machucam e chutam. Sei que quem sabe amanhã te encontre na rota do ônibus entre o centro e a casa, no verão quando fizer calor e num desses encontros casuais, cortamos os caminhos, só pra marcar a passagem, para reparar as vontades dos lábios e dos seios, de dentro do peito.



Divórcio


Quando os vejo pairando sobre mim
Quase desesperados
Como se antecedessem os fatos
Como se perdesse o início
Se perdessem
Bem no fundo desse buraco maníaco de si
Me ouvindo repetir dizer que não sou de quem
Sentindo o amargo imaturo do seu amor
Ingênuo dos olhos que não choram
Mas piscam numa frequência afetiva
Por mim?
Quando eu nem sou um vício típico
e não fico
São olhos fixos
Pedidos
Vencidos
Eu disse que não gosto de acordos
e eles me olharam acabados
dois olhos insatisfeitos
e divorciados dos meus
claros e sem tendências


<


Marinheira


Para ler ouvindo: Erykah Badu - Window Seat



Já rolei passageira nas mantas 
Das camas dos solteiros
Guardando um pouquinho de cada
Ganhando noites mal dormidas 
Provando da minha paz e idade 
Dançando e amando suave 
Enfeitiçada e enfeitiçando os ares 

Querendo mais e fácil 
Já rolei bandoleira nos lençóis 
E perfumei com suor do corpo 
Sem propósito de ficar 
Mas fincar 
Deixei mais que um gozo só 

Muitas vezes insatisfeita com o pouco
Cobrando voz e gozo
Desfiz muitas aventuras
Parti porque não quis 
E quis outro porto 

Não que eu faça pouco 
Do coração dos outros
Muitas vezes é isso 
Já me desfizeram 
Já me desfiz 
Não como objeto que não somos 
Mas como loucos que nascemos 
E não casamos porque não queremos 
Não oramos, pecamos
Ajoelhamos tanto sem reza
Nos quartos dos lobos... 

Não que não precise-se de carinhos 
E um morno feito dentro do peito
E não veja a lua como enfeite de dois
E não dê as mãos e nem chore de saudade 
Não sinta arrepiar um fino no estomago

Mas já amei tantos loucos
Sem preciosidade num Eu Te Amo
E já fui e sou tão desvairada 
Voltando pra casa de tarde
Desde às vinte horas de ontem amando
Já me apaixonei assim 
E desapaixonei algumas outras vezes 
Também houve a quem não esqueci 
E há aqueles que eu sempre volto 
Enrolada numa luxúria 
Eu tenho muitos endereços 
Amores impecáveis 
Sem contratos 
Tipo marinheira 





Tempos secos

São tempos secos 
A pele da boca racha 
As palavras saem secas 
Ameaça se perder 
Todo mundo tem sede 
De correr 
Porque sente falta 
D'água na boca 
Da libertinagem 
De ser 

Todo mundo precisa 
Chorar 
Molhar os lábios 
Do consolo 
Beijar na boca 
Se danar
Sem censura
Sem se preocupar 
Com a fissura 
Dos anjos 
Do Diabo 
Os de cinza e preto 


A gente quer mais 
É sair firme 
Não ralar ruim 
Não calar 
Não clarear 
Não perder a raiz 

Nessa ideia conservada 
Perdi alguns dedos de paz 
Na caminhada 
Querendo prevalecer 
Sabe?! 
E culpamos nós 
Os mesmos que secam 
Sem esperança 

Nesses tempos secos 
Nós nem somos mais os mesmos 
Nem lançamos mais 
Um pedaço de pano branco 
Pedindo paz

Poema para as resistentes

Sempre depois do grito
A voz rouca 

Nos mal dizem louca 
quem não sabe da nossa andança 
de pés castigados 
pele rasgada 
cabeça tonta de resolver 
problema meu e problema teu 
que é problema nosso 
mas quase ninguém fica 

A gente se emenda depois de tudo 
e ainda tem coragem de viver 
outros absurdos 
Lutar porque não é um samba 
a gente dança sem sorrir 
e não é romântico se iludir 
de acreditar 

São estradas tensas 
Puxam o nosso tapete dos pés 
Arrancam nossas tranças 
Destroem nossos laços 
Violam nossos corpos 
E sem nenhuma preocupação 
não nos deixam ir 
nem vir 
voltar pra viver 

É ruim sobreviver 
Depois de mais um dia 
Sabendo do cadáver 
que se assemelha 
a minha trajetória 

Menos uma de nós 
Mais uma pra eles 
Morte matada de novo 
pelo mesmo filho 
do patriarcado 

Sempre depois da força 
Do punho 
Vem o choro 
quase morto 
ressuscitado 
da dor de sermos mal amadas 
pela cultura narcisista de machos 

E a gente vive 
pra contar história triste 
e de vitória 
E sabe que vive por causa do seio 
de cada uma que escreveu nossa glória 

Há dias impossíveis, eu sei 
As ruas nos dizem mais do que a lei 
O rei é rei, e não rainha 
a gente cansou 
mas inspira 
O machismo é louco no Brasil, viu?! 
retrocesso é boia 
Mas a dias impossíveis 
Enfrentar!