Marinheira


Para ler ouvindo: Erykah Badu - Window Seat



Já rolei passageira nas mantas 
Das camas dos solteiros
Guardando um pouquinho de cada
Ganhando noites mal dormidas 
Provando da minha paz e idade 
Dançando e amando suave 
Enfeitiçada e enfeitiçando os ares 

Querendo mais e fácil 
Já rolei bandoleira nos lençóis 
E perfumei com suor do corpo 
Sem propósito de ficar 
Mas fincar 
Deixei mais que um gozo só 

Muitas vezes insatisfeita com o pouco
Cobrando voz e gozo
Desfiz muitas aventuras
Parti porque não quis 
E quis outro porto 

Não que eu faça pouco 
Do coração dos outros
Muitas vezes é isso 
Já me desfizeram 
Já me desfiz 
Não como objeto que não somos 
Mas como loucos que nascemos 
E não casamos porque não queremos 
Não oramos, pecamos
Ajoelhamos tanto sem reza
Nos quartos dos lobos... 

Não que não precise-se de carinhos 
E um morno feito dentro do peito
E não veja a lua como enfeite de dois
E não dê as mãos e nem chore de saudade 
Não sinta arrepiar um fino no estomago

Mas já amei tantos loucos
Sem preciosidade num Eu Te Amo
E já fui e sou tão desvairada 
Voltando pra casa de tarde
Desde às vinte horas de ontem amando
Já me apaixonei assim 
E desapaixonei algumas outras vezes 
Também houve a quem não esqueci 
E há aqueles que eu sempre volto 
Enrolada numa luxúria 
Eu tenho muitos endereços 
Amores impecáveis 
Sem contratos 
Tipo marinheira 





Tempos secos

São tempos secos 
A pele da boca racha 
As palavras saem secas 
Ameaça se perder 
Todo mundo tem sede 
De correr 
Porque sente falta 
D'água na boca 
Da libertinagem 
De ser 

Todo mundo precisa 
Chorar 
Molhar os lábios 
Do consolo 
Beijar na boca 
Se danar
Sem censura
Sem se preocupar 
Com a fissura 
Dos anjos 
Do Diabo 
Os de cinza e preto 


A gente quer mais 
É sair firme 
Não ralar ruim 
Não calar 
Não clarear 
Não perder a raiz 

Nessa ideia conservada 
Perdi alguns dedos de paz 
Na caminhada 
Querendo prevalecer 
Sabe?! 
E culpamos nós 
Os mesmos que secam 
Sem esperança 

Nesses tempos secos 
Nós nem somos mais os mesmos 
Nem lançamos mais 
Um pedaço de pano branco 
Pedindo paz

Poema para as resistentes

Sempre depois do grito
A voz rouca 

Nos mal dizem louca 
quem não sabe da nossa andança 
de pés castigados 
pele rasgada 
cabeça tonta de resolver 
problema meu e problema teu 
que é problema nosso 
mas quase ninguém fica 

A gente se emenda depois de tudo 
e ainda tem coragem de viver 
outros absurdos 
Lutar porque não é um samba 
a gente dança sem sorrir 
e não é romântico se iludir 
de acreditar 

São estradas tensas 
Puxam o nosso tapete dos pés 
Arrancam nossas tranças 
Destroem nossos laços 
Violam nossos corpos 
E sem nenhuma preocupação 
não nos deixam ir 
nem vir 
voltar pra viver 

É ruim sobreviver 
Depois de mais um dia 
Sabendo do cadáver 
que se assemelha 
a minha trajetória 

Menos uma de nós 
Mais uma pra eles 
Morte matada de novo 
pelo mesmo filho 
do patriarcado 

Sempre depois da força 
Do punho 
Vem o choro 
quase morto 
ressuscitado 
da dor de sermos mal amadas 
pela cultura narcisista de machos 

E a gente vive 
pra contar história triste 
e de vitória 
E sabe que vive por causa do seio 
de cada uma que escreveu nossa glória 

Há dias impossíveis, eu sei 
As ruas nos dizem mais do que a lei 
O rei é rei, e não rainha 
a gente cansou 
mas inspira 
O machismo é louco no Brasil, viu?! 
retrocesso é boia 
Mas a dias impossíveis 
Enfrentar!

Segredos e belezas.

  Para ler ouvindo Otto - Dias de janeiro.


  A vida passa agora do avesso, dando ré no caminho de sempre, mas sem retroceder. É que estou andando de costas, e hoje não sei o que está na minha frente de fato, pelo menos sei o que se vai nas minhas costas todos os dias. É um metáfora sem droga (espero que entenda da segunda vez que ler), se eu não estivesse nessa posição meio insegura, não estaria aqui escrevendo bagunças, criando uma conversa lunática. Perderia de observar as peculiaridades das periferias, porque a cada etapa dessa viagem de metrô me deparo com a diversidade das comunidades suburbanas das lamas, vivem ali transitando os quintais - nós que somos do caos da esperança.

  E também, se não estivesse indo ver esse amor, que mora longe, e tem que descer quase na última estação... Se eu não fosse, e não estivesse disposta, perderia de ver o pôr do sol atrás de um concreto, fazendo valer sempre uma tarde de janeiro, embelezando a pelada dos meninos da favela num chão de terra... Perderia o anoitecer dentro do ônibus, que nem é grande coisa, mas vale a pena o caminho.

 E não daria os beijos doces, e nem conheceria bem os trejeitos do galante, que não é de filme, mas é mais charmoso que qualquer uma dessas mentiras.

 A vida agora é uma reviravolta, o ano mal começou, e janeiro já esquenta, esquenta, esquenta tanto que mal tive tempo de refrescar a memória, já amo sem volta e sem medo de fim, sem troca, só pelo prazer de gostar, de gostar de amor lúdico, de amor. Nem sei mais quando, só sei que hoje o tanto que caminhei, fiquei de pedacinho em pedacinho pelos cantos, nem quis voltar tão cedo, fiquei um bocado no colchão quando peguei o ônibus voltando dia dois de janeiro. Mas tanto arrodeio valeu à vista e o beijo, que não volta.


-Um de janeiro de 2016, 17 e pouca.

Transa

Quando finalmente me tocou as curvas 
Sabe, minha cintura junto de outra 
Pélvis sob pélvis 
Amor justo 
Justíssimo 
Sentada próspera 
Com beijo danado 
E no tom do abraço 
Fui feliz embalada com o suor do corpo 
E uma lambida esperta no pescoço 
Quando finalmente emendada na boca 
E naquela umidade entregando o corpo 
Quando finalmente as roupas vão 
Dois corpos ocuparão a insanidade 
Foi um fio pra se perder 
Sabia que a posição seria a do prazer 
Minha língua de base pra próxima fase 
O lábio macio pra me fazer falar 
que passe o limite 
e eu fique sem ar pra responder 
Que ai... 
De quatro me atrai 
deitada me amansa 
sentada alcanço 
os minutos mais próximos do gozo 
da voz mansa 
E o som que faz a minha coxa 
Na coxa soar como o estralo 
que faz a mão batendo na minha bunda 
Quando finalmente me tocou lá funda 
e molhada