Não diga farpas



Quando não souber 
O que falar pra uma mulher 
Não diga farpas 
Farsas mal ditas 
Não diga nada 
Quando não souber 
Das figas que já fizemos por trás 
Dessas idas 
Protegendo nossas vidas 
da insegurança dos homens
Da violência mantida 
Sob os nossos direitos 

Então não fala nada não 
Cuidado quando diz 
Que a gente é puta 
E bruxa 
E macumbeira 
Lugar de másculo 
Macho 
Não é dentro da nossa seita 

Respeita nossas antepassadas 
fendas 
De dentro do nosso fluído fundo
Das nossas vulvas sem culpa

Antes do café esfriar


Antes do café esfriar 
Olhou bem calma o copo 
Bebeu café na boca molhada 
Nua e intensa 
Parecia aquela coisa forte 
Um prazer muito obrigada 
Dentro de cada uma 
Um mistério 
E um tempo velho
Uma tal de lambida cá 
Dentro de cada uma 
E tato e oralidades 
O café frio 
Que depois é que se lembra 
Ficou pouco forte 
Depois dessas olhadas intensas
De nós duas 
Pontuais pra pouca vergonha 
Que nos lateja 
Toda vez que a gente beija 
Amargas da vida 
Invernais
Nada santinhas 
Amantes 
Derramando café na mesa 
Bebendo café 
Bebendo minha sina 
Lambendo minha vontade 
A gente sabe que esse tempo foi...
Pouco pra tudo isso 
Eu te olhava tomar café 
E sentia um fogo 
Eu queria ser aquele copo 
Eu queria que o café derramasse no corpo 
Tua boca o fim da vida
Desconcentra meu foco 
E o café fica frio no final 
Que a gente se envolve

Amor Ausências Ardências



  Na pressa que me traz de volta pra tua mão, me atento ao chão pra não fragilizar. Eu não acredito mais que o destino te arraste até aqui, na minha cara e um pé dos meus passos, nem acredito na força do destino, nem acredito mais em você. O mundo deu uma volta imensa em nós dois, lá daquele tempo até aqui, e as vezes volto sozinha pro teu colo, numa loucura inunda que me derruba, como um vento forte com teu perfume, ou um fumo, um filme e um disco.

  Ontem à noite sonhei com você, bonito e tão impressionista uma obra de arte, olhando pra mim esnobe e carinhoso, sorrindo comigo e rindo como se soubesse de tudo, uma história sem fim... Não lembro a última vez que sonhei, nem lembrava da última vez que tinha te visto, foi como se estivesse mesmo ali, no mesmo fundo de tela, com o mesmo amor que eu sentia.

  Te engoli hoje apulso. Acordei num tempo chuvoso e o meu corpo um clima ameno, úmido, reagindo aos meus pensamentos, quase como se você estivesse me beijando agora. Uma saudade tão grande do teu corpo e tua atitude, e da minha boca toda vermelha dos teus impulsos. Uma falta tão grande do espaço curto do quarto, do calor que fazia, da janela lá de cima que a gente fumava e ria.

  Quando me lembro, não forço nenhuma parada, teu amor nem era fundo, era leve e quente, mais perto da carne que do coração. Que moía minhas agonias, numa resolução simplista, casual... Eu ia e voltava, tu ia e voltava, num ritmo sem pressa e sem coragem de cobrar na volta.

  Nossa distância não é bruta, e as lembranças não machucam e chutam. Sei que quem sabe amanhã te encontre na rota do ônibus entre o centro e a casa, no verão quando fizer calor e num desses encontros casuais, cortamos os caminhos, só pra marcar a passagem, para reparar as vontades dos lábios e dos seios, de dentro do peito.



Divórcio


Quando os vejo pairando sobre mim
Quase desesperados
Como se antecedessem os fatos
Como se perdesse o início
Se perdessem
Bem no fundo desse buraco maníaco de si
Me ouvindo repetir dizer que não sou de quem
Sentindo o amargo imaturo do seu amor
Ingênuo dos olhos que não choram
Mas piscam numa frequência afetiva
Por mim?
Quando eu nem sou um vício típico
e não fico
São olhos fixos
Pedidos
Vencidos
Eu disse que não gosto de acordos
e eles me olharam acabados
dois olhos insatisfeitos
e divorciados dos meus
claros e sem tendências


<


Marinheira


Para ler ouvindo: Erykah Badu - Window Seat



Já rolei passageira nas mantas 
Das camas dos solteiros
Guardando um pouquinho de cada
Ganhando noites mal dormidas 
Provando da minha paz e idade 
Dançando e amando suave 
Enfeitiçada e enfeitiçando os ares 

Querendo mais e fácil 
Já rolei bandoleira nos lençóis 
E perfumei com suor do corpo 
Sem propósito de ficar 
Mas fincar 
Deixei mais que um gozo só 

Muitas vezes insatisfeita com o pouco
Cobrando voz e gozo
Desfiz muitas aventuras
Parti porque não quis 
E quis outro porto 

Não que eu faça pouco 
Do coração dos outros
Muitas vezes é isso 
Já me desfizeram 
Já me desfiz 
Não como objeto que não somos 
Mas como loucos que nascemos 
E não casamos porque não queremos 
Não oramos, pecamos
Ajoelhamos tanto sem reza
Nos quartos dos lobos... 

Não que não precise-se de carinhos 
E um morno feito dentro do peito
E não veja a lua como enfeite de dois
E não dê as mãos e nem chore de saudade 
Não sinta arrepiar um fino no estomago

Mas já amei tantos loucos
Sem preciosidade num Eu Te Amo
E já fui e sou tão desvairada 
Voltando pra casa de tarde
Desde às vinte horas de ontem amando
Já me apaixonei assim 
E desapaixonei algumas outras vezes 
Também houve a quem não esqueci 
E há aqueles que eu sempre volto 
Enrolada numa luxúria 
Eu tenho muitos endereços 
Amores impecáveis 
Sem contratos 
Tipo marinheira